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A fé e a humildade do centurião

"Jesus foi com eles. Já estava perto da casa quando o centurião
mandou amigos dizerem a Jesus: 'Senhor, não te incomodes,
pois não mereço receber-te debaixo do meu teto. Por isso,
nem me considerei digno de ir ao teu encontro. Mas dize uma palavra,
e o meu servo será curado. Pois eu também sou homem sujeito
a autoridade, e com soldados sob o meu comando. Digo a um:
Vá, e ele vai; e a outro: Venha, e ele vem. Digo a meu servo:
Faça isto, e ele faz'" (Lc 7.6-8).

A maior luz pode entrar nos lugares mais escuros. Podemos achar as flores mais seletas desabrochando onde menos se espera. Aqui havia um gentio, um romano, um soldado - oficial militar revestido de poder absoluto -, porém, um patrão terno, um cidadão com consideração, um homem que amava a Deus! Que ninguém, portanto, seja desprezado por causa da carreira que segue, e que o provérbio "Poderá algum bem vir de Nazaré?" nunca seja ouvido dos lábios de um sábio. As melhores pérolas foram achadas nas cavernas mais escuras do oceano. Por que não continua hoje a situação de Deus ter alguns, mesmo em Sardes, que andarão diante de Cristo, vestido de branco, por serem dignos? Que ninguém pense que, por causa da sua alta posição na sociedade, não pode sobrepujar as virtudes. Não é a situação que deve ser culpada, mas o homem. Se o seu coração estiver certo, a situação pode ser difícil, mas a dificuldade pode ser superada; sim, e do meio daquela dificuldade surgirá uma excelência que, de outra forma, você não teria conhecido. Não diga no seu coração: "Sou soldado, e o ambiente da caserna não contribui para a religião; por isso, vou viver como bem quero, posto que não consigo viver como deveria." Não diga: "Sou operário no meio daqueles que blasfemam, e por isso seria em vão falar em santidade e religião." Não, pelo contrário, lembre-se de que é seu dever especial, não tanto falar dessas coisas preciosas, mas vesti-las pessoalmente, dia após dia, como seu ornamento normal. Onde a lâmpada deve ser colocada, senão no aposento que, de outra forma, ficaria no escuro? Você pode ter a certeza de que a sua profissão e a sua posição não servirão de desculpa pelos seus pecados, se continuar neles nem a sua condição servirá como defesa para a sua falta de integridade e de virtude, se estas não forem achadas em você.

Quanto ao centurião, podemos observar que talvez nunca tivéssemos ouvido falar a seu respeito, embora ele amasse seu servidor; talvez nunca tivéssemos lido o seu nome, embora cuidasse com ternura da saúde do seu escravo; é possível que não tivesse achado nenhum lugar no registro inspirado, embora amasse a nação dos judeus e construísse uma sinagoga para eles; nem teríamos lido a história da sua vida, embora ele tivesse se tornado prosélito da fé judaica - a única coisa que lhe concedeu uma vaga nessas páginas sagradas é esta: ele acreditava no Messias, ele tinha tanta fé no Filho de Deus que Jesus disse a seu respeito: "Nem em Israel encontrei tamanha fé." Aí está a questão vital. Eis, meus irmãos, o assunto digno de nota, que os arrolarão entre os bem-aventurados. Se você crê em Jesus Cristo, o Filho de Deus, seu nome está escrito no livro da vida do Cordeiro, mas se você não crê nele, as excelências externas que você tem, por mais admiráveis que sejam, serão de pouco proveito para você.

A fé do centurião é descrita tanto no capítulo 8 de Mateus, quando no capítulo de Lucas que temos diante de nós, em termos de ser essa fé do tipo mais sublime, e o aspecto mais notável que ela tem é que se associava com a humildade mais profunda. O mesmo homem que disse "Dize uma palavra, e o meu servo será curado" também disse "Não mereço receber-te debaixo do meu teto". Ao apresentar diante de você o exemplo desse soldado nobre, nosso sermão girará nesses dois pivôs. Vou dirigir a atenção de vocês a essa estrela dupla, que brilha com suave esplendor nos céus das Escrituras: A profunda humildade desse homem não diminuía a força da sua fé, e sua fé gigantesca não era, de modo algum, hostil à sua profunda humilhação.

Começando, portanto: a humildade do centurião não diminuía a força da sua fé.

Observe suas expressões de humildade - declarou não ser digno de ir até Jesus. Disse ele: "Nem me considerei digno de ir ao teu encontro"; e, ainda, achava que não era digno que Jesus fosse até ele. "Não mereço receber-te debaixo do meu teto." Essa humilhação de si mesmo foi ocasionada pela lembrança de ser ele um gentio? Isso pode ter contribuído para a sua atitude. Foi porque se sentia arrependido por causa de diversos atos brutais e grosseiros que tivessem manchado sua vida de soldado? É possível que seja assim. Mas tudo isso não surgira, muito mais, porque ele tinha profundo discernimento do seu próprio coração, e aprendera a enxergar a verdadeira natureza do pecado; e, por isso, o centurião que era digno, segundo a declaração dos judeus, era muito indigno no seu próprio conceito?

Você pode ter notado na biografia de alguns personagens eminentes como eles se depreciam. Southey, na sua Vida de Bunyan, parece sentir dificuldade em entender como Bunyan usou uma linguagem tão depreciadora a respeito do seu próprio caráter. É verdade, afinal de contas, que segundo o que sabemos da biografia dele, ele não era em nada tão mau como a maioria dos aldeões, a não ser no caso de proferir tantos palavrões profanos. Pelo contrário, havia nesse homem algumas virtudes que mereciam a maior aprovação. Southey atribui essa atitude a um estado mental mórbido, mas nós, pelo contrário, a atribuímos a uma volta da saúde espiritual. Se o poeta excelente (Southey) tivesse enxergado a si mesmo na mesma luz celestial que iluminou Bunyan, teria descoberto que Bunyan não exagerara, mas simplesmente declarara, dentro das suas capacidades, uma verdade que superava, em muito, seus poderes de expressão verbal. A grande luz que brilhou ao redor de Saulo de Tarso foi a tipificação exterior daquela luz interior, mais brilhante do que o sol, que entra raiando na alma regenerada, e revela o caráter horrível do pecado que habita no interior. Acredite em mim: quando você escuta crentes fazerem confissões abjetas, não se trata de serem piores do que outras pessoas, mas é que se enxergam numa luz mais clara do que as demais; e a indignidade (ou falta de merecimento) desse centurião, não era por causa de ele ter sido mais perverso do que outros homens - pelo contrário, fica claro que ele tinha sido muito mais virtuoso do que era corriqueiro na humanidade -, mas porque enxergava o que outras pessoas não enxergavam e sentia o que outras pessoas não sentiram.

Por mais profunda que fosse a contrição desse homem, por mais assoberbante que fosse seu senso da sua total falta de merecimento, ele não duvidou, nem por um momento sequer, do poder de Cristo, e da vontade de Cristo, para fazer essa cura. Certo leproso dissera, em ocasião anterior: "Se tu quiseres", mas o centurião tinha tão nítida consciência da vontade de Cristo de aliviar a humanidade sofredora, que nem lhe ocorre colocar a questão em pauta. Já havia muito tempo, ficara com total certeza quanto a isso, e agora toma por certo, como axioma no seu conhecimento de Jesus, que essa pessoa forçosamente está disposta a fazer todo o bem que lhe seja pedido.

Alem disso, o centurião não tem duvidas quanto ao poder de nosso Senhor. A paralisia que acometera o seu empregado era grave, mas a fé do centurião não foi abalada por isso. Estava convencido de que Jesus podia não somente curá-la, curá-la de imediato, curá-la completamente, mas também curá-la sem dar um só passo do lugar onde estava. Seria questão de Jesus falar a palavra, e o empregado ser curado. Ó humilhação gloriosa, como te curvas para baixo! Ó fé nobre, como voas tão alto! Se nós, meus irmãos, conseguimos imitar esse caráter nobre nos dois aspectos, na profundidade do seu alicerce, na altura do seu pináculo, seremos edificados até ficar bem semelhantes ao modelo do templo de Deus! O centurião estava mesmo vazio, e nada possuía de si mesmo; não era digno de receber nada da parte de Cristo, e muito menos podia imaginar que pudesse dar alguma coisa a Cristo, porém, confiava que todas as coisas são possíveis com o Mestre, e que ele pode e quer fazer segundo a nossa fé, e isso de uma maneira que desvenda gloriosamente o seu poder real.

Meus caros amigos, especialmente vocês que ficam preocupados quanto à sua alma, que se sentem indignos - e esta não é uma impressão enganosa, pois vocês são indignos mesmo -; vocês estão muito aflitos por causa dessa indignidade, mas, se soubessem mais a respeito dela, ficariam ainda mais aflitos, pois a apreensão que vocês já têm da sua pecaminosidade, embora seja muito dolorosa, não abrange, de modo algum, a plena extensão dessa iniquidade: vocês são muito mais pecaminosos do que acham que são, muito mais indignos do que têm consciência de serem. Em vez de tentarem aliviar de modo iníquo seus pensamentos melancólicos com as seguinte palavras: "Você tem conceitos mórbidos de si mesmo, você não deve falar assim", peço a vocês, pelo contrário, que o caso de vocês é totalmente desesperador à parte de Cristo, que na sua natureza espiritual, a cabeça inteira está doente e o coração inteiro é fraco. Não quero que vocês retratem a úlcera horrível da sua depravação com esperanças e alegações especiosas. Não considere essa enfermidade como mancha superficial da pele; ela está na fonte e na origem da sua vida, e envenena o seu coração. As chamas do inferno terão que envolvê-los a não ser que Cristo se interponha para salvá-los. Vocês não possuem nenhum mérito de nenhum tipo ou espécie, e nunca possuirão; e, além disso, não têm o poder de escapar da sua condição perdida sem a ajuda da mão do Salvador. Sem Cristo, vocês não poderão fazer nada, pois sua pobreza é abjeta, sua bancarrota é desesperadora, e vocês não podem, mesmo pela máxima diligência, fazer de si mesmos algo diferente daquilo que vocês são. Nenhuma palavra que eu possa pronunciar pode exagerar a sua condição deplorável, e nenhuma sensação que vocês porventura chegarem a experimentar poderá representar seu verdadeiro estado em cores demasiadamente alarmantes.

Você não merece que Cristo venha até você; você não é digno de se aproximar de Cristo. Mas, aqui há um contraste glorioso, nunca deixe que esse fato, por um momento sequer, interfira em sua plena crença de que aquele que é Deus, mas que assumiu a nossa natureza, que aquele que sofreu em nosso lugar na cruz, que aquele que agora reina nos mais altos céus, é capaz de fazer para você, e se dispõe a fazer para você, muito abundantemente mais do que você pede ou até mesmo imagina. A sua incapacidade não impede a operação do poder dele; a sua falta de merecimento não pode algemar a bondade dele nem limitar a sua graça. Você pode ser um pecador que nada merece, mas não é por isso que ele não pode perdoá-lo. Você pode ser, no seu próprio conceito (e isso com toda a razão), a pessoa mais indigna que Cristo já desceu até o ponto de abençoá-la, mas isso não é motivo para ele não condescender em apertá-lo contra o seu peito e em aceitá-lo e salvá-lo. Eu desejo que, assim como a primeira verdade o impressionou profundamente, a segunda verdade (que se segue) tome posse, com igual força, do seu coração: Jesus Cristo "é capaz de salvar definitivamente aqueles que, por meio dele, aproximam-se de Deus" (Hb 7.25), e que ele está tão desejoso quanto é capaz, e que o seu vazio não afeta a plenitude dele, a sua fraqueza não altera o poder dele, a sua incapacidade não diminui a onipotência dele, a sua falta de merecimento não refreia o entranhável amor dele, que frequentemente se estende ao mais vil de todos os vis.

Satanás quase sempre arruma as coisas da seguinte maneira: quando conseguimos um pouco de esperança, é quase sempre uma esperança fundamentada em nós mesmos, uma idéia vã de que estamos ficando cada vez melhores - um conceito maligno: a carne orgulhosa, que prejudica a cura, e que o Cirurgião precisa extirpar; longe de semelhante conceito ser um sinal de cura, impede a cura. Se, por outro lado, conseguirmos uma profunda consciência do nosso pecado, o Maligno coloca sua pata no meio, e insinua que Jesus não pode salvar pessoas tais como nós somos. É grande mentira satânica, pois quem pode determinar qual é o limite do poder de Cristo? Mas se as duas coisas seguintes puderem se encontrar - uma consciência completa do pecado e uma crença inabalável no poder de Cristo para vir a braços com o pecado e vencê-lo - certamente, o reino de Deus teria chegado até nós, em poder e em verdade; e seria dito, de novo: "Nem em Israel encontrei tamanha fé."

E agora, para vocês que estão com o coração perturbado, tenho a seguinte palavra, e depois passarei para outra consideração. A consciência que vocês têm da sua própria falta de merecimento, se for devidamente usada, deve forçá-los na direção de Cristo. Vocês são indignos, mas Jesus morreu pelos indignos. Jesus não morreu por aqueles que professam ser, por natureza, bons e merecedores, pois os sãos não precisam de médico; mas está escrito: "No devido tempo, Cristo morreu pelos ímpios," "que se entregou por nossas" - o quê? "Excelências e virtudes?" Não; "que se entregou pelos nossos pecados, segundo as Escrituras". Lemos que ele "sofreu, o justo pelos" - pelos "justos"? De modo algum, "o justo pelos ímpios, para nos levar a Deus". A farmácia do evangelho é para os doentes; o pão do evangelho é para os famintos; as fontes do evangelho estão abertas para os imundos; a água do evangelho é dada aos sedentos. Vocês que não têm necessidade nada receberão; mas vocês que que-rem essas coisas podem vir livremente. Não deixem suas necessidades enormes e dolorosas impelir vocês de se refugiarem em Jesus. Deixem os vastos anseios do seu espírito insaciável compelir vocês a chegar a Jesus, em quem habita toda a plenitude. A sua falta de merecimento deve agir como asa para levá-lo até Cristo, o Salvador do pecador. Deve, também, impedir você de levantar os escrúpulos e de fazer exigências que, para algumas pessoas, são grande impedimento para encontrar a paz. O espírito orgulhoso diz: "Preciso receber alguns sinais e maravilhas, senão não crerei. Preciso sentir convicções profundas, e tremores horríveis, ou preciso ficar numa tremedeira por causa de sonhos, ou de textos ameaçadores, aplicados a mim com poder terrível." Ah, mas você, que não tem merecimento, se você se humilhar verdadeiramente, não ousará pedir essas coisas; você terá acabado de fazer exigências e estipulações, e exclamará: "Senhor, dá-me uma só palavra, fala uma única palavra de promessa, e para mim bastará. Mas diga apenas: 'Seus pecados são perdoados'; dá-me apenas metade de um texto, dá-me uma só palavra bondosa para me dar certeza e para afundar meus temores de novo, e crerei nela e descansarei nela." Dessa maneira, a convicção de falta de merecimento que você tem deve levá-lo a uma fé singela em Jesus, e impedi-lo de exigir aquelas manifestações que os estultos exigem com tanta ansiedade e impudência. Amado, a situação chegou a este ponto: você está tão destituído de merecimento, que está excluído de toda e qualquer esperança a não ser Cristo: todas as demais portas estão lacradas contra você com tábuas e pregos. Se houver alguma coisa que possa ser feita em favor da salvação, você não poderá realizá-la. Se houver necessidade de algum merecimento seu, você não o possui. Cristo lhe diz que não precisa de nenhum merecimento para vir até ele, mas se você confiar nele, ele o salvará. Acho que estou escutando você dizer: "Então, meu Senhor, posto que a situação chegou a esta:

Se eu for embora, só posso perecer;
Estou resoluto para a tentativa fazer;
Pois eu sei se longe me manter
Para sempre vou morrer.

E por isso, seja qual for o resultado, lanço minha alma culpada na tua expiação preciosa, pois minha persuasão é que tu és poderoso para salvar uma pessoa como eu; e tenho persuasão tão cabal da bondade do teu coração, que sei que não lançarás fora um pobre temente que vem a ti, e te aceita como único fundamento da sua confiança."

II. Quero que vocês prestem atenção, por alguns momentos, enquanto exploramos outro aspecto do texto. Todos nós devemos crer em Cristo tão bem como esse soldado cria.

Observem a forma que essa fé adotou; ele disse, de si para si "Sou oficial subalterno, sujeito a autoridade. Não sou o Comandante Supremo, sou apenas oficial comandante de uma tropa de cem ho-mens, porém, sobre esses cem homens exerço controle ilimitado. Digo a este: 'Vá' e ele vai; digo ao outro: 'Vem' e ele vem, e meu empregado, e ao meu pobre empregado doente (seu coração tenro volta ao empregado, que passa a ser incluído na ilustração), digo: 'Faça isso' e ele faz de imediato. Sou um simples oficial subalterno, e eu mesmo estou sujeito à autoridade; mas tal é a influência da disciplina que nenhum questionamento é interposto, nem são toleradas deliberações. Nenhum soldado vira-se contra mim para dizer que lhe dei uma tarefa difícil demais; nenhum soldado da tropa inteira ousa, em ocasião alguma, me dizer: 'Não farei isso.'" O poder da disciplina entre as legiões de Roma era notavelmente grande. Bastava o comandante dizer: "Faça isso" e era feito, mesmo que milhares tivessem de sangrar e morrer. "Ora", argumentava o centurião, "esse homem glorioso é o Filho de Deus; não é um subalterno; ele é o Comandante Supremo. Se ele fala a palavra de ordem, sua vontade será muito certamente feita. "As febres e as paralisias, as boas influências e as más, todas devem estar sob o seu controle, e, por isso, ele poderá curar meu empregado num só momento. Quem poderá resistir ao grande César do céu e da Terra?" Assim pensava o centurião, segundo acredito. Portanto, basta Jesus querer alguma coisa e, até aos últimos extremos da Terra, as influências sob o controle de Jesus se colocam em operação, imediatamente, para cumprir a vontade dele. O centurião retratava-se sentado em casa, e colocando em efeito os seus desejos sem se levantar da cadeira, meramente emitindo uma ordem; e sua fé colocava o Senhor Jesus na mesma posição.

"Tu não precisas vir até à minha casa; podes ficar em pé onde estás, e, se tão somente falar a palavra, a cura será realizada imediatamente." Esse centurião, no seu coração, entronizava o Senhor Jesus como capitão sobre todas as forças do mundo, como o generalíssimo do céu e da Terra; como, na realidade, o César, o governante imperial, de todas as forças do universo. Assim foi pensado pela graça, o pensamento foi expresso de modo poético, foi falado com nobreza, foi crido gloriosamente; mesmo assim, não passava da verdade, e nada mais do que a verdade, pois o domínio universal realmente está no poder de Jesus hoje. Se ele era um verdadeiro César antes de morrer, enquanto era desprezado e rejeitado pelos homens, muito mais agora, depois de ter pisoteado o lagar e manchado as suas vestes no sangue dos seus inimigos vencidos; muito mais agora, depois de ter levado cativo o cativeiro, e de ter se sentado entronizado por direito filial à destra de Deus Pai; muito mais agora, depois de Deus ter jurado que colocaria todas as coisas debaixo dos pés de Jesus, e que, diante do nome de Jesus, se dobrarão os joelhos de todas as coisas no céu, de todas as coisas na Terra, e de todas as coisas que estão embaixo da Terra; muito mais agora (repito), Jesus pode operar segundo o seu beneplácito. Hoje, basta Jesus falar, e é feito, ordenar, e fica firme.

Amados, vejam se esta verdade nos transportar como em asas de águia. Basta César falar "Absolvo-te" e seu súdito culpado é inocentado; basta César falar e uma província é conquistada, um exército derrotado e posto em fuga. Os mares tempestuosos são navegados segundo a vontade de César, túneis são cortados através das montanhas, e o mundo inteiro coberto de uma rede de estradas militares; César é absoluto, e sua vontade é lei. Assim é na Terra, mas muito mais no céu. Basta o César imperial do céu dizer "Perdoo", e os demônios do inferno não poderão acusar você. Basta ele dizer "Eu te ajudarei", e quem se oporá a isso? Se Emanuel é por você, quem será contra você? Se ele falar, as algemas dos seus hábitos pecaminosos terão de cair, e as trevas nas quais a sua alma foi enclaustrada durante muito tempo, devem ceder diante da luz instantânea. Ele reina como Rei, Senhor de tudo; bendito seja o seu nome para sempre; que cada um de nós, pela nossa fé, dê a Jesus toda a honra que é devido ao seu nome. Saudemos o grande Imperador, que no passado foi morte, mas agora é, para sempre, Senhor do céu e da Terra!

Vou lembrar-lhes de determinado aspecto; a fé desse homem não interferiu, por um momento sequer, em sua humildade. A fé interferir com a humildade?! Meus irmãos, a fé foi a origem dessa humildade; foi o alicerce no qual a humildade se fundamentou. Vocês não percebem que, quanto mais elevado o conceito que o centurião tinha de Cristo, quanto menos digno esse oficial se sentia das bondosas atenções dessa personagem tão bondosa e generosa? Se ele tivesse tido um conceito menos sublime de Jesus, não teria dito: "Não mereço receber-te debaixo do meu teto." Havia, naturalmente, uma vista, que o centurião teve de si mesmo, que bastava para humilhá-lo, mas a visão muito mais maravilhosa da glória do Senhor Jesus era a verdadeira raiz e origem da sua humildade. Porque Cristo era tão grandioso, o centurião se sentia indigno de ir ao seu encontro e de acolhê-lo em sua casa.

Observem, meus irmãos, a fé do centurião afetou a sua humildade ao deixá-lo satisfeito com uma palavra da parte de Cristo. Sua fé disse: "Basta uma palavra; ela operará a cura"; e depois, sua humildade disse: "Ah, como sou indigno de receber uma única palavra da parte dele. Se uma só palavra operará um milagre, é coisa tão grande e poderosa que é mais do que eu mereço; por isso, não vou pedir mais do que isso; não vou pedir os passos de Jesus quando um só som bastará; não vou clamar pela sua presença, quando a simples vontade dele pode restaurar a saúde do meu empregado." Por crer que uma palavra bastaria, teve a humildade de abrir mão de orar por mais coisas; foi assim que sua confiança em Cristo, em vez de interferir com sua consciência da sua própria indignidade, ajudou na sua manifestação. Irmãos e irmãs, nunca pensem, nem sequer por um momento (conforme pensam muitas pessoas estultas), que a fé forte no Senhor seja necessariamente orgulho - pois é o contrário. Uma das piores formas de soberba é questionar a promessa de Deus. Quando um homem diz: "Cristo prometeu que salvará aqueles que nele confiam; eu confiei nele, por isso sou salvo; sei que sou salvo; tenho certeza disso, porque Deus o diz, e não quero nenhuma evidência melhor, pois essa certeza é a humildade em ação." Mas se um homem diz: "Deus disse que aqueles que nele confiam serão salvos; confio mesmo nele, mas ainda não sei se estou salvo", isso seria a mesma coisa que declarar não saber se Deus é mentiroso ou não; e o que é mais impertinente, que mais orgulhosamente ofensivo do que isso? Sei que é coisa muito comum dizer: "Parece tão presunçoso dizer que sei que sou salvo." Acho que é muito mais presunçoso duvidar quando Deus fala de modo positivo, e desconfiar quando a promessa fica clara. Deus diz: "Quem crer e for batizado será salvo." Se você crê e foi batizado, e se Deus é verdadeiro, você será salvo - você está salvo! Não é questão de esperar que seja assim - forçosamente deve ser assim. Seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso; e longe seja destes lábios insinuarem uma dúvida de que talvez Deus possa trair a sua promessa e não cumprir a sua palavra. Se você quer questionar alguma coisa, questione se realmente confia em Cristo; mas solucionado esse aspecto, fica solucionada a questão inteira. Se crê que Jesus é o Cristo, você nasceu de Deus; se depende exclusivamente dele, os seus pecados, que são muitos, são todos perdoados. Aceite o que Deus diz, assim como o seu filho aceita o que você diz. Não é demais para Deus pedir isso de você - pois você pede isso do seu filho. Embora seja uma pobre criatura falível, você não desejaria que seu filho desconfiasse de você. Você quer merecer crédito, e Deus, não? Você quer que seu pequenininho confie em você, embora seja uma pessoa má, e você não quer crer que a voz do seu Pai celeste é a própria vontade, nem quer confiar nela? Ah! - confie mesmo, implora você, e quanto mais confia, tanto mais reconhecerá que não merece ter essa confiança. Quanto a mim, pois, fico atônito ao pensar que serei salvo; acho que serei lavado de todos os meus pecados no sangue precioso de Cristo, que serei colocado numa rocha, e que um cântico novo será colocado na minha boca. Fico assoberbado e, ao pensar nisso, digo: "Como sou indigno de receber tais favores! Meu valor é menor do que o mínimo dos benefícios que tu me outorgaste!" A sua fé não assassinará a sua humildade, e a sua humildade não esfaqueará a sua fé; mas as duas caminharão até o céu de mãos dadas, como um irmão corajoso e uma irmã linda, sendo que o irmão é destemido como um leão, e a irmã, meiga como uma pomba, o irmão se regozija em Jesus, e a irmã, enrubesce com o próprio eu. Bendito par, eu bem gostaria de hospedá-lo no meu coração durante todos os dias da minha peregrinação na Terra.

Apresentei para vocês, portanto, da melhor maneira que consegui, o exemplo do centurião com algumas lições. Agora, passaremos resumidamente à aplicação. Faremos a aplicação a três tipos de pessoas. Jesus Cristo é poderoso e está disposto a salvar você neste instante. Qual é a forma da sua aflição? Seus pecados são grandes? Creia, eu o exorto, e que Deus, o Espírito Santo o ajude, creia que Cristo pode perdoar agora todos os seus pecados. Você o está vendo naquela cruz? Ele é divino, mas como sangra! Ele é divino, mas como geme! Ele sente fortes dores! Ele morre! Você acredita que existe algum pecado que é grande demais para ser cancelado por esses sofrimentos? Você acha que o Filho de Deus ofereceu uma expiação inadequada? Uma expiação a respeito da qual você possa falar que haja um limite para a sua capacidade, limite além do qual não pode operar em favor da salvação dos crentes, de modo que, afinal de contas, o pecado pesasse mais do que o sacrifício oferecido por Jesus, e a imundice estivesse mais cheia de contaminação do que o sangue de purificação? Ó, não crucifique Cristo de novo por duvidar do poder do Deus eterno! Meus irmãos, quando olhamos para as esferas celestiais, no silêncio da noite estrelada, e nos lembramos das verdades maravilhosas que a astronomia nos revela sobre a magnificência e a majestade inconcebível da criação, se, então, refletimos que Deus que criou todas essas coisas, tornou-se homem em nosso favor, e que, como homem, ele foi pregado na cruz e sangrou até a morte por amor a nós, nos pareceria, nesse caso, que se todas aquelas estrelas estivessem repletas de habitantes, e se todos aqueles habitantes, individualmente, tivessem se rebelado contra Deus, e inundados em crimes, deve haver eficácia suficiente no sangue de quem é o próprio Deus encarnado para remover todos os seus pecados. Esse grande milagre dos milagres, pois, com o próprio Deus honrando a sua própria justiça ao sofrer uma morte vicária, é uma exibição de infinita severidade e amor, que por toda a eternidade deve parecer tão glorioso a ponto de tragar totalmente a lembrança do pecado das criaturas, e colocar esse pecado totalmente fora de vista. Sim, pecador, creia que neste momento os pecados de cinquenta anos podem se desgrudar de você, sim, e mesmo de setenta ou oitenta anos - que num só instante, você que está tão escuro como o inferno pode ser tão puro quanto o céu, se Jesus disser a palavra. Se você crê em Jesus, a obra está feita, pois crer nele já é ser puro. É possível, no entanto, que você sinta a dificuldade de ficar livre da dureza de coração. Você acha que não consegue se arrepender, mas Jesus, pelo seu Espírito, não pode fazê-lo se arrepender? Você hesita em responder essa pergunta? Veja como o mundo, há poucos meses, estava amarrado solidamente no gelo, mas como os narcisos, os açafrões e as fura-neves penetraram a camada de neve, subindo daquela terra que estava congelada, e como a neve e o gelo sumiram com o brilho do sol! Deus faz isso muito facilmente com o doce sopro do vento e os bondosos raios solares, e ele pode fazer a mesma coisa, no mundo espiritual, a seu favor. Creia que ele pode e peça que ele o fará, e você verá o enorme bloco de gelo derreter-se, e aquele iceberg horrível diabólico gigantesco que é o seu próprio coração começará a gotejar com chuviscos de arrependimento cristalino, que Deus aceitará por intermédio do seu Filho amado. Mas talvez seja algum mau hábito que lhe provoque problemas. Você passou muito tempo nele, e pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo, as suas manchas? Você não consegue se livrar desse hábito. É um mal desesperado que puxa você para baixo como as mãos de demônios que o tiram da superfície da correnteza da vida e o afundam nas profundezas horripilantes da morte e da imundície. Ah, eu conheço seus temores e desesperos, mas homem, pergunto-lhe, Jesus não pode livrá-lo? Ele possui a chave do seu coração e pode girá-la para fazer todos os mecanismos do coração funcionar de modo diferente de agora. Ele que sacode a Terra com um terremoto, varre o mar com um tornado, pode mandar um terremoto ao seu coração, bem como uma tempestade de forte arrependimento, e desarraigar os hábitos antigos que você tem. Jesus, cujos atos são todos maravilhosos, certamente poderá fazer o que ele quer neste mundo pequeno da sua alma, posto que no grande mundo exterior ele governa como lhe agrada. Creia no poder dele e peça a ele que demonstre esse poder. Basta que ele diga uma só palavra para essa questão que provoca aflição neste momento ser removida. Ainda ouço você dizer: "Não posso"; uma incapacidade horrível paira sobre você. Mas a questão não é aquilo que você consegue ou não consegue fazer - a questão é o que Jesus pode fazer. Pode haver algo que é difícil demais para o Senhor? O Espírito eterno pode chegar a ser derrotado quando ele resolve vencer dentro de um homem? Aquele que sustenta as colunas enormes da Terra e espalha amplamente os céus, que no passado foi crucificado, mas que agora vive para sempre, será que ele pode fracassar? Você, pobre, miserável e incapaz, entregue os seus cuidados nas mãos dele, e peça a ele que faça por você o que você não pode fazer por conta própria, e assim será feito segundo a sua fé.

Uma segunda aplicação do nosso assunto será feita aos obreiros pacientes que estão a ponto de desmaiar. Sei que há muitos que imploram incessantemente diante de Deus por seus parentes e vizinhos não convertidos para que sejam salvos. Vocês imploraram durante longo tempo em favor do marido, ou do filho ou da filha, mas essas pessoas avançaram ainda mais no pecado. Em vez de suas orações serem atendidas, parecia que os céus riram da importunidade de vocês. Tomem esse único cuidado: não deixem que a sua incredulidade leve você a acreditar que o objeto dos seus cuidados não pode ser salvo. Enquanto há vida, há esperança. Sim, embora acrescentem embriaguez à concupiscência, e blasfêmia à embriaguez, e dureza de coração e impenitência à blasfêmia, se Jesus falar uma única palavra, cada um deles será desviado do seu mau caminho. Isso pode ser realizado com os meios da graça, ou até mesmo sem os meios da graça. Há homens que, no meio dos seus serviços, ou durante as suas diversões, receberam impressões que fizeram deles novos ho-mens, e justamente quando menos esperavam que semelhante coisa ocorresse; e aqueles que eram líderes na tripulação rebelde de Satanás se tornaram os capitães mais corajosos no exército de Cristo. Quando Jesus dá a palavra de ordem, não sobra espaço para duvidar da possibilidade da salvação da pessoa envolvida. Você é anticristão quando você exclui da esperança a meretriz, quando você exclui do arrependimento o ladrão, quando você até mesmo se desespera pelo assassino; isso porque o coração grande de Deus é maior do que todos os seus corações somados, e os pensamentos grandiosos do Pai amoroso não são como os seus pensamentos quando estes se elevam ao máximo, e nem os caminhos dele são os seus caminhos quando estão na sua máxima liberalidade. Oh, se um amigo que você tem, se seu filho, sua esposa, seu marido, é o próprio diabo encarnado, ou se houver sete demônios, ou uma legião de demônios, dentro dele, você nunca pode sussurrar a palavra "desespero" enquanto Cristo viver; Cristo, pois, pode expulsar a legião de espíritos imundos, e outorgar seu Espírito Santo para ocupar o lugar assim deixado vazio. Tenha fé, portanto; você é indigno de receber a bênção, mas tenha fé em Cristo, que é tão poderoso para outorgá-la. Muitos entre você vão dar suas aulas bíblicas, e outros vão se ocupar da pregação do evangelho, e vocês estão ficando muito desanimados por não verem o sucesso que tanto desejam. Pois bem, talvez seja para o seu bem que vocês sintam quão pouco podem realizar à parte dos ministérios divinos. Que continue essa humilhação de alma, mas não permitam que essa humildade degenere em desconfiança do próprio Cristo. Se Cristo estivesse morto e sepultado agora, e nunca tivesse ressuscitado, nossa situação, como pobres pregadores, seria horrível; mas enquanto Cristo viver, revestido do poder do Espírito eterno, que ele concede liberalmente, não devemos sequer temer, e muito menos nos desesperar. Que a igreja de Deus cobre ânimo, e se convença de que, com o Cristo vivo no meio dos exércitos cristãos, a vitória será concedida em breve aos seus pendões reais.

A aplicação final que quero fazer é igual à segunda, mais estou aplicando em escala mais ampla. Existem muitas pessoas que são como vigilantes que foram se cansando. Já ficamos sabendo que Cristo está para vir - o grandioso Homem Vindouro - e o Senhor sabe muito bem que existe uma necessidade premente para alguém vir, por essa máquina velha, que é o mundo, está rangendo pavorosamente, e parece que ela está tão sobrecarregada dos molhos do pecado humano, que seus eixos estão a ponto de se quebrar. A infinita longanimidade de Deus tem impedido que um mundo louco entre em dissolução total - para isso, Deus tem oferecido muitos socorros e freios, mas a situação é lastimável, e parece ir de mal a pior. Nossa nação está podre, no seu próprio âmago, tanto no comércio quanto na política. Parece que ninguém consegue tanto sucesso quanto aquele que demitiu a sua consciência e que ri dos princípios; todas as coisas já chegaram a tal ponto culminante que há necessidade de vir algum libertador, senão não saberemos qual será a situação de todos nós. Mas ele virá, conforme consta da promessa, e, para aqueles que o aguardam, sua vinda será como os raios da estrela da manhã que proclamam a aurora. Ele está chegando, e na sua vinda haverá tempos gloriosos, um milênio, um período de luz, de verdade, de alegria, de santidade e de paz. Estamos vigiando e aguardando por isso. Mas dizemos: "Ah, não há esperança em pensar em converter o mundo! Como a verdade será pregada? Onde estão as línguas para falar dela? Como são poucos que a proclamam com ousadia! Onde estão os homens que levarão a cruz até aos últimos limites do globo terrestre, e conquistarão nações para Cristo?" Ah, não diga no seu coração: "Os dias passados eram melhores do que hoje." Não escreva um livro de lamentações, com esse conteúdo: "Os profetas, onde estão eles? E os apóstolos já se foram, e desapareceram todos os poderosos confessores que viveram e morreram por Cristo." O Senhor, ao levantar um só dedo, pode suscitar mil Jonas para cada cidade no país inteiro, mil Isaías para declarar a sua glória. Se o Senhor assim ordenar, companhias de apóstolos e exércitos de mártires surgirão dos recantos quietos da velha Inglaterra, ou sairão em quantidade das fábricas das suas cidades. O Senhor pode fazer maravilhas se for segundo a sua vontade. A pior situação da igreja é simplesmente quando sua maré ficou bem baixa, para então voltar a subir na plenitude da sua força. Tenha confiança, pois mesmo que os instrumentos falhem e o ministério se torne estéril e morto, a vinda de Cristo ainda cumprirá os seus propósitos, e, quando ele aparecer, os reinos deste mundo se tornarão os reinos de nosso Senhor e do seu Cristo. Jesus não está sujeito a autoridade, mas tem soldados sob o seu comando, e ele só precisa falar para um ou outro espírito fazer qualquer coisa que fosse, "Vá" ou "Venha" e a sua vontade será feita; se Jesus só falar à igreja por meio do seu Espírito Santo e disser: "Faça isso", a tarefa impossível será realizada; aquilo que parecia além de toda a perícia humana ou da esperança mortal será realizado imediatamente. Quando Jesus diz: "Faça", será feito, e seu nome será louvado. Precisamos de mais fé e de mais humildade. Nesta congregação, anjos gêmeos permanecem para sempre. Que eles saiam à batalha conosco e voltem conosco para a vitória. Ó Senhor, que amas a humildade, e que és o autor da fé, concede que sejamos impregnados com essas duas virtudes, por amor a Jesus. Amém.